Para que você se exibe, afinal?
Antes de tudo, a palavra exibicionismo irá aparecer, neste post, não no sentido sexual, ou tão somente. Embora possamos pensar em tal perversão no cotidiano da rede, o ato de se exibir do qual falo aqui representa uma situação de audiência pessoal, não necessariamente ligada a fantasias libidinosas.
Pois bem, a partir deste texto de Eric Dupin, fiquei matutando algumas idéias que vez por outra passam pela minha cabeça: dizem respeito a uma certa morte da privacidade, corroborada pela própria ânsia de exibição dos internautas - que encontraram na tal web 2.0 a oportunidade perfeita de conquistarem seus velhos 15 minutinhos de fama.
De antemão, já deixo claro: acho fantástica a possibilidade dos usuários comuns criarem seus próprios conteúdos (como assim faço agora). E que depois os compartilhe, dialogue sobre eles com outras pessoas e, daí, possam surgir mais e mais idéias - e conteúdos novos, portanto.
A questão aqui, entretanto, não está na produção de uma foto, um texto ou um vídeo (e sua posterior publicação), mas na construção da persona do internauta - ou de diversas, até. O que ele é, o que deseja ser e como ele pretende ser visto são perguntas importantes no processo de compreensão do indivíduo e da sociedade onde ele se insere. É uma espécie de construção de um personagem a partir do qual se deseja ser visto.
Excessos
Dupin mostra insatisfação com o excesso de informação produzida nos sites de redes sociais (”réseaux sociaux”) e, principalmente, pelos agregadores desse tipo de conteúdo, como o FriendFeed e o WhereIsMe, serviços que, de uma forma geral, reúnem suas atividades na web para que depois você as exiba ao mundo. Assim, o blogueiro dispara:
[...]não vejo qual interesse pode haver, para mim ou para os outros, o fato de mostrar qual música escuto, quais fotos estou vendo ou fazendo o upload neste momento, ou em qual link acabo de votar no Digg. Não se trata mais de identificação social, trata-se de exibicionismo (tradução livre).
Em outras palavras, a foto que postei no Flickr, a música que ouvi no Last.fm, a notícia que acabei de votar no Digg, o artigo que li não sei onde etc., é como se já não mais nos pertencessem. Uma experiência que ficaria, a priori, na esfera do privado acaba por se publicizar, esquivando-se de nosso controle, e por nossa própria vontade. Claro, sempre há opções do que se compartilha ou não, mas… Sufocante? Eu acho. Diante de agregadores do tipo, é inevitável a pergunta: privacidade para quê?
Entendamos: o fim da privacidade, aqui, não tem mais nada a ver com cookies, rastreamento de IP, documentação de dados pessoais ou similares. Não se trata de nossas informações estarem nas mãos de grandes corporações (ou de hackers) e sobre o que fazem ou deixam de fazer com tais dados. Nesse ponto, não só parece que nós, consumidores de modo geral, perdemos a guerra como até passamos para o lado oposto, escancarando nossas janelas, deixando Truman e Ed mortos de inveja.
E por que se exibir?
Essa ciberexibição tem a ver, principalmente, com a construção de identidades, indo mais longe, a afirmação da sua própria existência. A informação que se consome, ao ser compartilhada, acaba “denunciando” quem a consome. Dá pistas, rastros, serve de índice. Sabendo disso, o usuário irá construir uma persona em cima dos seus hábitos. Persona essa que, a meu ver, de nada ou muito pouco vale saber se é verídica ou não, se corresponde com o “real” (ou, no dizer de Lévy, “atual”) ou é dotada de características totalmente fictícias, criadas e recriadas à vontade pelo internauta. E ao inventar tais personas, afirma-se a existência de cada um. Afinal, como é possível existir se não houver ninguém a nos presenciar?
Dessa mesma forma, um único indivíduo pode ser múltiplo, bem mais de uma pessoa em redes sociais diversas, ainda que se mostre com o mesmo nome e/ou fotos (não falo, portanto, dos chamados fakes). Posso ser alguém “engraçadinho” no Orkut, um “metaleiro” no Last.fm, um “fotógrafo sensível” no Flickr e uma “mistura” de tudo isso ao considerar a rede de blogs onde me insiro. Vivo, assim, a construção de diversos “eus” nas várias “tribos” das quais participo - para usar os termos de Maffesoli. Ou não: posso preferir ser a mesma pessoa - o que talvez até chegue a ser monótono, que ironia - em todos os lugares onde consumo e compartilho informações. Mas estarei, sempre, criando uma ou mais personas, e, certamente, irei preferir ser reconhecido tomando-as por base.
No fim das contas, Dupin acaba soltando: “Si j’ai envie de vous parler d’un coup de coeur musical, je le ferai ici et j’argumenterai”. (Se eu tiver vontade de lhes falar sobre alguma música da qual gostei, o farei aqui e argumentarei [o porquê] - tradução livre). Ao fazê-lo, Dupin não se dá conta de que estará dando rastros de si mesmo, e ao escrever sobre qualquer coisa em seu(s) blog(s), estará construindo sua(s) persona(s), e ele mesmo será um ator nessa “peça”. Ainda assim, sua inquietude diante do que chamou de “exibicionismo” não deixa de ser interessante, e sua postura de escrever me faz pensar sobre o quão tal atitude pode ser mais rica que simplesmente compartilhar a canção no Last.fm ou algo similar.
É claro, há muitos outros propósitos e formas de interação nas réseaux sociaux do que a própria exibição e a construção de seu eu. Para uma melhor compreensão, mais uma vez faço da Recuero um ótimo ponto de partida. Antenada como sempre, suas palavras me fazem a cabeça borbulhar.