O Orkut e a inclusão digital
Certa vez, um amigo falou numa roda: “Acho que o Paulo Coelho tem uma importante função social”. Diante do que foi dito, nós, os demais, em tese minimamente “alfabetizados” para não engolir aquelas palavras, ficamos um tanto quanto estupefatos, naquele típico momento unanimemente burro. Entretanto, escondia-se ali uma simples pausa. Após molhar seu bico, o rapaz continua: “Ele serve como início, como ponte. As pessoas que não têm o costume de ler podem começar por ele para depois partir a novos desafios”.
Sagaz, meu amigo matou a Veronika e o Alquimista com um best seller só (que trocadilho foi esse!): disse que as obras do nosso mago não eram tão boas quanto as velhas machadianas ou alencarinas, nem tão ruins a ponto de servirem de encosto para porta. Perfeito.
Longe de querer discutir a qualidade de Paulo Coelho… Não, não. Deixo isso para os críticos. Mas que a idéia de meu amigo faz sentido, isso faz. Afinal, de certa forma, não é tentador ver aquele livrinho laranja da pipa ou o superlançamento da semana do tipo “Como ser feliz e bem sucedido nos negócios, mandar bem na cama e comprar o carro do ano em apenas 10 passos”? Ainda mais quando os encontramos nos supermercados, quase disputando lugar com presuntos, pneus, cadeiras de praia, travesseiros…
Não parece óbvio que Paulo Coelho e o exército de escritores de mercantil, digamos, são como o prêt-a-porter? Heróis da democracia, facilitadores do difícil, dão acesso ao inacessível e trazem a nós o inalcançável. Espertos, inteligentes, cultos, não fingem ter uma dieta baseada em dicionários - apesar de tanto conteúdo na cabeça. Com eles, tudo é muito simples, muito direto. Complicar pra quê? No fundo, são tal qual a Ana Maria Braga, que só precisa tucanar o “amido de milho” por questões profissionais.
E a maldita inclusão digital?
Não sou eu que acho ruim a inclusão digital. A frase não é minha, apenas a li por aí diversas vezes - em geral quando leio comentários de coisas toscas como as pérolas do Orkut (ver tais preciosidades aqui ou aqui). Sim, gosto dessa tosqueira. Melhor que televisão…
Em linhas gerais, “incluir digitalmente” é aumentar a proximidade entre, nós, a sociedade, e as novas tecnologias, incorporando-as ao nosso dia-a-dia, seja no trabalho, na cidadania, no lazer, no consumo cultural etc. Não se trata apenas de dar instrução jumental para uso de Offices da vida - seja o pago, seja o gratuito - tampouco de comprar computadores e dar acesso a eles, como quem diz “pronto, senta aí e te tira”.
A inclusão digital se faz presente de muitas outras formas. Com o (verdadeiro) jornalismo colaborativo, com a criação (e manutenção) de comunidades virtuais (por mais que esse seja um tema caro a muitos pensadores), com o acesso à informação ou à possibilidade de se produzi-la… E por aí vai. E, apesar de ver uma cultura “televisiva” em certos casos - no pior sentido passivo que essa idéia possa ter -, ainda me pego pensando nesse papel de Paulo Coelho que tem o Orkut, MSN e similares.
Sim, afinal, quem de nós não conhece ao menos uma pessoa que nem pegaria no computador se não fossem esses brinquedinhos? Se não fossem os amigos dos chats, as possibilidades de fofoquinhas nas comunidades, aquela espiadinha no fotolog…? Ok, o uso de tais ferramentas é meramente baseado no entretenimento. Mas, a partir de e até que ponto essa utilização pode se transformar em algo mais “sério”? Como a apropriação da técnica pode trazer mudanças significativas - num sentido emancipatório - para a vida das pessoas? O que se pode tirar em termos educativos e profissionais daquilo que parece meramente um grande “besteirol”?
Questão de estética
A inclusão digital acaba, por vezes, sendo preocupante, não por ela em si, mas pelas reações que traz, como as adversidades ocasionadas pela apropriação de determinado espaço virtual por parte de um grupo de certa forma não muito desejado - por outros grupos, é claro.
Uma pequena amostra seria a comunidade “Esse Orkut tá muito misturado”. O número de usuários é insignificante (205, no momento desta edição), mas a idéia, não, e o perigo que se esconde por trás dela tem a ver com a problematização do digital divide (se encararmos o termo além de uma acepção geográfica). Muito mais que o acesso ou não às tecnologias da informação, o importante talvez seja pensar na distância virtual que separa classes socioeconômicas diferentes, da mesma forma como existem as separações físicas: o apartamento de luxo, a cerca elétrica e o carro blindado de um lado; a escola deficiente, o esgoto a céu aberto e a saúde em frangalhos, do outro.
Para finalizar, ficam, então, algumas perguntas, ao invés de um fechamento conclusivo:
- O uso de ferramentas e serviços de entretenimento podem dar origem a outras formas de manuseio - mais profissionais ou educacionais, por exemplo? Como se daria esse processo?
- Haveria formas de se evitar a manifestação de preconceito, como no caso da “mistura” no Orkut? Há que se tratar como crime ou isso só engrossaria o caldo que já nem deveria existir?
- Como as empresas donas dos serviços encaram tais separações? Como evitar que a apartheid venha da própria empresa? O que fazer caso se forme uma fila na porta do Orkut, por exemplo?
- Afinal, Paulo Coelho é ou não literatura? (eu perco o leitor mas não perco a piada)